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Zona de Interesse (2023): o cotidiano-administrativo de um Holocausto diegético

O que se tornou comum ao cinema ocidental e sua predisposição ao sentimentalismo asséptico foi a espetacularização e fetichização das mortes dos judeus. “Zona de Interesse” se torna assim um filme singular ao abordar o Holocausto por um dos escopos que o particulariza entre os demais genocídios históricos: o Holocausto representa o ápice da perfeição técnica dos meios em um modelo de produção capitalista que atingiu seu estágio mais reacionário, chauvinista e instrumental.


Torna-se necessária uma obra que reconstitui o projeto do Holocausto representando-o como este foi operacionalizado e sistematicamente instrumentalizado em uma funcionalidade produtiva a partir da atividade de fábricas de produção de não-valor voltadas para um fim: exterminar judeus.


Tal constituição de processos e procedimentos só é possível de se materializar a partir do financiamento, tudo se faz com dinheiro, e é mérito do filme explicar isso. O nazismo que o ocidente capitalista se apropriou como epítome antagônica, direcionada para uma metafisicalização maniqueísta dos falsos valores de “democracia” e “liberdade”, só existiu enquanto projeto (econômico-político de classes) e alçou o status de malignidade máxima (regime) por representar os interesses da burguesia de seu tempo, sobretudo proteger sua propriedade dos meios das possibilidades de uma revolução socialista do proletariado. A união do Estado com a Burguesia assume novas características a partir de um refinamento dos meios em aspectos tanto produtivos técnicos quanto na ideologização chauvinista em uma dialética intraestética-operativa.


Quando Rudolf Höß se senta numa longa mesa com outros representantes do regime e discutem como irão alocar centenas de milhares de judeus em trens e direcioná-los para Auschwitz pode-se notar o que tento explicitar através de uma crítica ao capital: genocídios só se fazem com dinheiro, por quem tem o dinheiro, e para manutenção e reforçamento da hegemonia dos donos do dinheiro.



O caráter cotidiano-administrativo do Holocausto é importante para nos fazer perceber que, por trás de câmaras de gás e fornos, existe a racionalidade técnico-instrumental do capital. Rudolf, em seu confortável escritório ao lado de assistentes e de um empresário, analisam se o novo modelo de fornos em salas circulares funcionarão para a cadência de incineração de judeus homens, mulheres e crianças, se a eficiência compensa o gasto.


Os campos manchados de sangue ou a fuligem que se estendem por quilômetros são os estágios finais derivados dos escritórios e corredores assépticos, tais como os da visita de Rudolf à Berlim, fazendo reuniões, conversas e exames em corredores e salas branco-esverdeadas. Nas marchas e uniformes imponentes dos oficiais pomposos e de um impotente falso imponente Rudolf existe a estetização da política na forma para uma necessária abstração de seu conteúdo, quando na realidade a intrinsecabilidade do conteúdo para com a forma é inevitável, os parabéns de aniversário dados pela comitiva na soleira da porta que é simultaneamente o tapete de boas-vindas do maior campo de concentração da história do nazismo demonstra o luxo da barbárie brindado com xerez.


Dessa forma, na experiência de Rudolf, nota-se que se você reduzir o fascismo ao seu elemento mais comum e cotidiano você terá os mesmos elementos do liberalismo capitalista tido como democrático: a ascensão de status individuais independente do tipo de exploração e opressão necessária. O fazer “porque era a única coisa a ser feita”, inevitabilidade das ações e da história como desculpa ora jusnaturalista ora metafísica ora ambos.


É utilizado o afastamento da câmera como enquadramento-ponte para aproximar a simulação do comum na casa-escritório e sua família nazimodelo do genocídio murado que é seu próprio ganha-pão meritocrático. O que o filme proporciona com sua abordagem é diegetabilidade dos campos de concentração e mais especificamente do Holocausto enquanto os campos como destino final de um processo que ocorre muito além fora - sons, luzes, fumaças, gritos, tiros - tão naturais quanto o escutar do canto dos pássaros no jardim (tal qual no começo). O que te faz pensar sobre é pior do que o que se mostra pelos olhos. A imaginação do espectador é exercida de maneira a complementar o que Adorno aponta ao declarar que “desde Auschwitz, temer a morte significa temer algo pior do que a morte”


Constitua, como fez Adorno, o nazifascismo “essa constelação de meios racionais e fins irracionais [...] corresponde de certo modo à tendência geral civilizatória que resulta em uma tal perfeição das técnicas e dos meios, enquanto, na verdade, a finalidade geral da sociedade é ignorada". E o propósito da sociedade são novos contornos enquanto a experiência de vida disseminada pelo liberalismo burguês constitui os mesmos impulsos por desejos idealistas entre posses e demonstrações, como passear pelo seu jardim com sua mãe e tecer inúmeros comentários de futuras aquisições e reformas na vizinhança de Auschwitz.



O Holocausto se configura como essa borda na qual o nazismo mostrou sua relação de movimento dialético superestrutural na relação público-privado. O Holoucausto são as fofocas na antessala de jantar entre essa e a cozinha, o tratamento com a empregada judia e ameaça de aniquilação caso não limpe direito o chão. O Holocausto é fenômeno socialmente compartilhado entre opressores e oprimidos, e a relação dialógica de poder só se perpetua pela discursividade ideológica de uma superioridade racial, na qual o que é puro não pode ser subvertido pelo impuro como o foi na modernidade segundo sua perspectiva metafísica mitológico-biológica.


O Holocausto diegético de “Zona de Interesse” é o sangue escorrendo pelas botas de Rudolf quando ele chega em casa após um longo dia de trabalho (coordenar o massacre de judeus) e uma criança judia lava seus calçados no tanque do fundo. É o que Hedwig sofre ao debater com seu marido no pequeno cais à beira do rio, seu desejo de permanecer no pequeno paraíso vivendo o sonho de se fingir burguesa enquanto seu esposo é um funcionário removível, tal como o é e o foi. Grama rente, arbustos bem cuidados e uma estufa confortável, ideal para criar os filhos, ter dois cachorros e receber visitas importantes.


Como maior recurso, o Holocausto diegético é o constante inxame de sons embrulhados acolchoados por cimento e tijolos, presente a todo instante como um processo de sustentação do anormal como o suar frio de quando se está nauseante. Sabe-se o que se ocorre, porém só como tensão e dúvida, não sabemos o que é, só pode-se deduzir e especular o pior, e ainda assim o pior nunca será o bastante.


A sogra de Rudolf apresenta a quebra de tais paradigmas de normalidade suspensa e mais ainda sustentada. Seu vínculo e preocupação com a antiga empregada escorrega na conversa com sua filha, em um dos poucos momentos nos quais os dormitórios de Auschwitz são olhados pela família de seu administrador. Seu último momento na casa antes de fugir na madrugada é a noção do horror ao observar os fornos a pleno vapor e gás com o novo sistema adquirido por Rudolf. A relação do sujeito que usufrui dos ganhos do processo mas não pode encará-lo diante de seus olhos, pois o interpretado pela fumaça diz respeito a sua relação pessoal com as vítimas em posições sempre de opressão.



Moro em Araucária-PR, há uns 9 quilômetros da refinaria de petróleo da Petrobrás. Dependendo da calada da noite e do volume de produção dá pra se ouvir o constante ruído da fábrica queimando em labaredas que atingem dezenas de metros de altura no alto das torres. O horizonte por trás das nuvens fica avermelhado e me identifiquei com a personagem, não por estar testemunhando um genocídio, mas por estar vendo a imponência de uma fábrica em pleno funcionamento na sua capacidade máxima. Petróleo ou corpos humanos são combustível e material em incineração ou refinamento a depender do interesse de classes e do projeto de governo.


Apenas de todo afastamento na soleira da família tradicional nazista feliz é impossível impedir resquícios dos crimes de se deslocarem dos limites, como os ossos no rio da história que levarão seus crimes adiante, para nunca serem esquecidos.


Quando vomita na escadaria, o presente se mostra para revelar que não permitirá que seus atos sejam apagados, o holocausto foi um sucesso na mesma medida que uma falha, seu projeto teria sido concretizado se fossemos apagados da existência, a lembrança em dentes de ouro, cabelos, e roupas furadas de balas são provas da morte dos que viveram. A história deve ser salva das narrativas reacionárias, e os heróis do fascismo devem ir para onde Rudolf se dirige no último take: para os porões escuros e solitários da história.



O que busco aqui não é uma tal banalidade do mal, como seria de uma leitura e interpretação fáceis aos moldes viciosos, repetitivos e gnósticos de Arendt. Acho muito mais proveitoso aplicar um movimento de crítica ao Holocausto na qual esse apresenta a introjeção de uma nova forma de reificação nunca antes testemunhada porém inteiramente dentro da lógica do desenvolvimento do modo de produção capitalista. 

Como conversei com o Murilo, o filme apresenta nazistas, manipula nazistas, retrata nazistas, constrói e desconstrói nazistas, o que pode torná-lo aquém de um movimento de repulsa quando toda aquela realidade é modelada como um gerente indo e voltando do trabalho (coisa que na realidade ele foi). Porém ocorre nesse local e em todas essas escolhas pela obra o também apagamento dos oprimidos, humilhados, mortos e aniquilados: o povo judeu, os homossexuais, os ciganos, os eslavos e todos os demais desviantes de uma falsa homogenia monolítica reacionária.

Pensando nesse local trago alguém que pode refletir sobre o Holocausto e seus efeitos nas vítimas com muito mais qualidade, sem cair em uma falsa romantização do sofrimento dos poucos que sobreviveram que na realidade só serve para reforçar uma negação de existência a esses. Trecho do livro Dialética Negativa, de Theodor Adorno, dentro da seção “Depois de Auschwitz”:


"Com a administração do massacre de milhões, a morte tornou-se algo que antes nunca fora necessário temer dessa forma. Não há mais nenhuma possibilidade de que ela se insira na experiência vivida do indivíduo como algo em uma harmonia qualquer com o curso de sua vida. O indivíduo é que é desapropriado da última coisa que lhe restava e daquilo que há de mais miserável. O fato de não terem sido mais os indivíduos que morreram nos campos de concentração, mas espécimes, também precisa afetar o modo de morrer daqueles que escaparam dessas medidas. O genocídio é a integração absoluta que se prepara por toda parte onde os homens são igualados, aprumados, como se costuma dizer em linguagem militar, até que as pessoas literalmente os exterminam, desvios do conceito de sua perfeita nulidade. Auschwitz confirma o filosofema da pura identidade como morte. A fórmula mais exposta no Fim de jogo de Beckett, segundo a qual não haveria mais muito a temer, reage a uma prática que forneceu a sua primeira prova nos campos de concentração. Além disso, no conceito outrora louvável dessa prática já se vislumbrava teleologicamente a aniquilação do não-idêntico. A negatividade absoluta é previsível, não espanta mais ninguém. O temor estava vinculado ao principium individuationis da autoconservação, que, em sintonia com sua consequência, elimina-se. O que os sádicos diziam às suas vítimas nos campos de concentração, 'amanhã você vai sair como fumaça por essa chaminé e se mover em espirais em direção ao céu': designa a indiferença da vida de todo indivíduo, uma indiferença para a qual se dirige a história: já em sua liberdade formal, o indivíduo é tão cambiável e substituível quanto sob os pontapés dos exterminadores. No entanto, na medida em que o indivíduo, no mundo cuja lei é a vantagem individual universal, não possui outra coisa senão esse si próprio que se tornou indiferente, a realização da tendência já há muito familiar é ao mesmo tempo o que há de mais terrível; não há nada que conduza para fora daí, assim como não há nada que conduza para fora das cercas de arame farpado eletrificadas dos campos de concentração. O sofrimento perenizante tem tanto direito à expressão quanto o martirizado tem de berrar; por isso, é bem provável que tenha sido falso afirmar que depois de Auschwitz não é mais possível escrever nenhum poema. Todavia, não é falsa a questão menos cultural de saber se ainda é possível viver depois de Auschwitz, se aquele que por acaso escapou quando deveria ter sido assassinado tem plenamente o direito à vida. Sua sobrevivência necessita já daquela frieza que é o princípio fundamental da subjetividade burguesa e sem a qual Auschwitz não teria sido possível: culpa drástica daquele que foi poupado. Em revanche, ele é visitado por sonhos tal como o de não estar mais absolutamente vivo, mas de ter sido envenenado com gás em 1944, e de depois disso não conduzir coerentemente toda a sua existência senão a partir da pura imaginação, emanação do louco desejo de alguém há vinte anos assassinado."


Com essa crítica finalizo no reforço de onde comecei. O que o nazismo negou foi a total existência do outro, ser antifascista é também crer na existência do outro após este ter esse direito tirado dele de todas as formas, sem cair na recriação nunca fidedigna, arrefecedora e melodramática do massacre que buscou remover cada judeu da existência imediata, passada e futura. Existir também é o sofrer para que esse nunca seja esquecido, o presente é o acúmulo do passado e seus processos dialéticos pela história, e a superação só existe quando o que se é e foi ser de outra maneira que respeite os sujeitos-alvo da opressão.

Me lembro do filme, descrevi sons do holocausto pelo texto e no momento que não me cabem mais palavras então só resta o silêncio.


Referências citadas

ADORNO, T. Aspectos do novo radicalismo de direita. 1ª ed. São Paulo: Editora Unesp, 2020.

ADORNO, T. Dialética Negativa. 1ª ed. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2009.




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