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SKINAMARINK: Um pesadelo lúcido e intimista em um desconforto aconchegante

Entre os últimos meses de 2022 e os primeiros meses de 2023 uma estranha — no melhor sentido — produção independente estremeceu as linhas de alguns círculos da Internet. Skinamarink (2022) foi lançado de forma modesta no Fantasia Film Festival, na sua edição de Montreal, onde gerou certo murmúrio entre o público presente.

Com os baixos U$15 mil, a mente genial de Kyle Edward Ball, responsável pela direção, roteiro e screenplay, fez muito! Adotando uma filmagem mista, analógica-digital, Ball nos guia dentro de um pesadelo desesperador, lúcido e sem saídas.

Na trama, acompanhamos Kevin e Kaylee, irmão e irmã, respectivamente, ao acordarem no meio de uma madrugada extremamente ímpar. Em primeiro momento, seus pais não se fazem presentes na casa e as enfants percebem que se encontram na prisão mais familiar possível: as portas principais e as janelas da casa desapareceram. A locação única (a casa de infância do diretor), o chão forrado por carpetes, os brinquedos espalhados pela casa, as televisões de tubo e os pijamas infantis trazem o intimismo, o aconchego e a nostalgia latente da geração ocidental de classe média do final dos anos 90 e início dos 2000. A câmera estática e audaciosa em seus enquadramentos acalenta o espectador e pesa nos olhos. Por vezes, sentir sono é essencial, uma vez que, é ele quem nos deixa vulneráveis e desarmados, nos transformando em literais crianças mais uma vez.


SKINAMARINK (2022), dirigido por Kyle Edward Ball.

Os granulados e ruídos empregados na fotografia trazem uma poesia visual única para a obra, criam identidade e linguagem. O desconforto que nos entorpece o corpo durante os esquisitos 100 minutos do debut do jovem diretor canadense, amarra o nosso corpo na cadeira e nos convida às nossas memórias de infância.

Descobrir os primeiros exercícios fílmicos de Ball é uma experiência e tanto! O diretor, no YouTube, é dono do canal Bitesized Nightmares, onde publicou por anos, suas produções que já possuíam as veias pelas quais Skinamarink ganharia pulsão sanguínea. No meio dos vários curtas de 2,3 e 4 minutos, um se destaca pela duração. Heck (2020) serve como o preâmbulo de Skinamarink. As semelhanças entre os dois são inegáveis. É uma ótima forma de sentir calafrios em menos de 30 minutos. Um ponto de relevância nas duas obras até aqui comentadas, é o medo do abandono parental. No longa de 2022, a mãe aparece brevemente em algumas cenas e logo desaparece. No curta de 2020, a mãe abandona o próprio filho por ele ter sido amaldiçoado pelo câncer. "I'm sorry I got cancer.", é a frase que estraçalha os sentimentos em Heck.


HECK (2020), dirigido por Kyle Edward Ball.

No longa, abre-se a possibilidade de um possível processo de divórcio entre os pais dos jovens. Os indícios são dados dentro de um monólogo da mãe à Kaylee, onde a matriarca é interrompida pelo barulho de algum móvel ou utensílio sendo arrastado ao dizer: "Your father and I...", e logo após dizer que ambos amam muito os pequenos, desaparece.


SKINAMARINK (2022), dirigido por Kyle Edward Ball.

O desaparecimento de utensílios básicos da subsistência moderna ocidental constrói significado e expõe de forma eficaz o desconforto. Em dado momento, Kevin chama sua irmã ao banheiro para que ela veja que o vaso sanitário desapareceu. Como em uma dinâmica de sonho — no caso, pesadelo — lúcido, onde podemos alterar cores e movermos objetos para outros lugares.

Para aumentar a construção de um pesadelo cíclico, o filme é metrado em dias, explicitando que o sentimento opressor acompanha o crescimento daqueles jovens e os proporciona traumas para o resto da vida.


SKINAMARINK (2022), dirigido por Kyle Edward Ball.

Na última cena do filme, uma figura aparece em meio à escuridão e quebra a quarta parede nos perguntando os nossos nomes. Respondê-la ou não faz parte da experiência aterradora que é Skinamarink. Digo, pessoalmente, que a respondi com um sorriso no rosto.


SKINAMARINK (2022), dirigido por Kyle Edward Ball.

A junção da escuridão com o ruído e o granulado brinca com a percepção do espectador e por várias vezes nos dá a sensação de que algo sempre se esconde nos cantos. Sendo assim, uma ótima forma de causar e manter a tensão e o medo do começo ao fim.

Por fim, vale dizer que a experiência de Skinamarink é incrivelmente única e extremamente rica. Já se faz presente no panteão do horror experimental ao lado de títulos de peso como Un Chien Andalou (BUÑUEL, 1929), Eraserhead (LYNCH, 1977) e Begotten (MERHIGE, 1989). É um sopro necessário de vitalidade no horror que, por anos, sofreu pela pouca inventividade encabeçada pelas grandes produtoras e realizadores do mainstream. A obra de Kyle Edward Ball já dita tendência e influencia novos realizadores que buscam a inventividade e a liberdade do underground. Se mostra um filme necessário e assustadoramente acolhedor.




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