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Diálogos de uma pistola: O ódio em Seul Contre Tous (1998) é um horror social

Atualizado: 4 de abr.

Após ter despertado o ódio em Carn (1991) e antes de chocar o mundo com Irréversible (2002), o gênio argentino volta às entranhas da França para profaná-la em Seul Contre Tous (1998). Em seu longa debut, Gaspar Noé continua os passos do mais torpe Açougueiro parisiense.

Seguindo os acontecimentos de Carn, somos jogados ao lado do personagem de Philippe Nahon, fora de Paris, morando no apartamento de sua sogra e esperando um filho com a dona do bar de perto de seu antigo açougue, a persona já introduzida no preâmbulo de 1991. Nutrindo ódio pela sua atual esposa e com a esperança de ver sua amada filha novamente, arruma um emprego como guarda noturno em uma casa de idosos e assim guarda algum dinheiro para voltar à cidade das luzes.

Após espancar sua esposa e — possivelmente — abortar seu filho, rouba a pistola de seu falecido sogro e parte para a estrada pedindo carona sentido à capital. Chegando, vai até ao hotel mais “meia estrela” de Paris, um antigo conhecido, e pede pelo mesmo quarto onde, anos atrás, fez sua filha. Vaga as ruas entre goles de álcool e buscas de emprego, enquanto propaga injúrias sociais e nos apresenta seu mundo, sua forma-pensamento.


Seul Contre Tous (1998), dirigido por Gaspar Noé.


Ao fim do dia, quando deita na mesma cama de anos atrás, pensa em Cynthia, sua filha adolescente que vive em um orfanato. Seu amor por ela é doentio. Busca ajuda de antigos conhecidos e encontra ofertas que considera insignificantes. A cada passo dado, o niilismo insiste em continuar tomando conta de seu ser.


Seul Contre Tous (1998), dirigido por Gaspar Noé.

Quando todas as suas expectativas de se reerguer em sua cidade natal se acabam, decide ir atrás de Cynthia. Logo no início deste novo arco, um title é posto em tela dando a oportunidade do espectador abortar a experiência.


Seul Contre Tous (1998), dirigido por Gaspar Noé.

Após o singelo aviso, o clímax do filme é construído dentro de um novo quarto de hotel, este mais jeitoso que o anterior. Enquanto Cynthia ocupa a parede da janela do quarto, nosso ordinário, junto de sua pistola, ocupa a parede oposta, a que abriga o roupeiro. Ao olhar para sua filha por cima dos ombros, constrói uma ilusão de um amor corrompido, incesto, feminicídio e suicídio.

Ao voltar, percebemos que tudo não ultrapassava a suja imaginação do Açougueiro. São nos momentos seguintes que o nosso companheiro esboça seu único sentimento que não seja a raiva, o nojo e o ódio. Chora copiosamente como uma criança, vocaliza e implora o amor de sua filha, se debate em suas fantasias mais obscuras. Enquanto a câmera viaja para fora do quarto, indo para a rua, entramos em contato com os últimos pensamentos de nosso herói, em um monólogo repleto de absurdos e de um mórbido amor. O filme acaba.


Seul Contre Tous (1998), dirigido por Gaspar Noé.

O primeiro longa de Noé traz, de forma exímia, o coração do que viria ser a New French Extremity nos próximos anos. Um horror político, que toca no mais macabro do ser humano. Oferece uma realidade condizente, torpe e encontrada nas vísceras da sociedade. O "masculinismo" doente, o desamparo social, o desemprego e outros dos grandes males do capitalismo são representados aqui de forma magnífica. Aqui, Philippe Nahon não vive um personagem específico, o Açougueiro do cinema francês vive uma parcela da sociedade. A falta de um nome de batismo é o explícito disso. Sua persona é ofuscada pela sua função social — esta que, nem mesmo consegue exercer —, nosso amigo não é ninguém além disso, e é isso que o capitalismo quer. Por fim, Seul Contre Tous, em grande parte, nos mostra uma realidade que bate em nossa porta todos os dias, mas que pouco queremos ver.


Seul Contre Tous (1998), dirigido por Gaspar Noé.
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