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BLOODY MONEY: O baixo orçamento como potência catastrófica no cinema de horror

Atualizado: 10 de mar.

Dentro do cinema de horror/terror, quando pensamos nas três últimas décadas do século XX, grandes nomes nos vêm à cabeça — e mesmo que você não saiba os nomes dos personagens principais de cor e salteado, você sabe quem são — : o jovem maníaco mascarado de Haddonfield; o afogado e recluso de Crystal Lake; o ácido maníaco consumido por chamas de Elm Street; o jovem atormentado do Texas e a máscara de Woodsboro que cabe ao ódio de qualquer um, são alguns desses.

O slasher é cravado como subgênero em 1978, com o lançamento de Halloween, dirigido pelo gênio maldito e horror master incontestável John Carpenter. O surgimento d’A Forma através da figura de Michael Myers é o mito fundador da retórica. Todavia, em 1974, Tobe Hooper presenteou o mundo com a motosserra dançante de Texas Chain Saw Massacre, trazendo uma não-poesia visual que nos faz sentir o mais fétido cheiro da carne e das entranhas direto em nossas narinas.

A lógica do capital nunca foi propícia ao horror dentro da grande indústria — as atuais Blumhouse e A24 são assuntos para uma discussão futura —, mas isso nunca foi problema para os fanáticos e adictos do sangue na tela. Fora do grande eixo do norte, nomes como o nosso imortal demônio José Mojica Marins, o maldito mexicano Juan López Moctezuma, o mestre italiano Dario Argento e a breve besta japonesa Kaneto Shindô marcaram presença nas telas durante os anos 60. Muito antes de Hooper pensar o argumento de The Texas Chain Saw, Onibaba (SHINDÔ, 1964), À Meia-Noite Levarei Sua Alma (MOJICA, 1964) e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (MOJICA, 1967) já faziam muito com pouco.

Além do baixo orçamento, Mojica produziu seus maiores clássicos em um Brasil carcomido pelo fervor fascista da Ditadura Militar. Não diferente, Kaneto produziu o demônio nipônico de Onibaba nos escombros de um Japão "pós"-fascista, arrasado pela Segunda Guerra Mundial e pela hecatombe nuclear de Hiroshima e Nagasaki. Aliás, em entrevista o diretor diz que os efeitos causados pelo uso da máscara no filme são uma metáfora às modificações corporais que os acometidos pelas explosões das bombas sofreram.


Onibaba (1964), dirigido por Kaneto Shindô


Voltando ao norte, nos anos 70, o mercado de home video fez as produções de baixo orçamento explodirem nas pequenas telas nas noites de sexta entre amigos. Realizadores que focavam seu trabalho no sangue, viram este movimento como uma oportunidade e tanto. Aos poucos, pequenas produtoras e distribuidoras foram tomando proporção e as fitas corriam entre os jovens. O VHS proporcionou a cinefilia àqueles que não tinham a oportunidade da sala escura.

Na frente de suas televisões, uma geração inteira de jovens tomavam nota de seus filmes favoritos. A atenção e a repetição, junto da compreensão de signos e sintomas, mostraram qual caminho seguir. Não muito distante, em 1999, surgiria da mente de dois "filhos do VHS" o genial The Blair Witch Project. Juntando alguns trocados, Eduardo Sánchez e Daniel Myrick chegaram aos 60 mil dólares para a produção. Não imaginavam em nenhum momento que, no mundo todo, o filme arrecadaria 248 milhões de dólares.


The Blair Witch Project (1999), dirigido por Eduardo Sánchez e Daniel Myrick


O clássico setentista e marco-zero do cinema slasher foi rodado com cerca de 325 mil dólares, arrecadando dentro do mercado doméstico 47 milhões. Michael Myers tomou a maioria das telas dos Estados Unidos no outono de 1978, sendo elas pequenas ou grandes. Foi transformado em marca patenteada e diversas continuações foram feitas. Incluindo o infame Halloween 3, de 1982, dirigido por Tommy Lee Wallace. Este último, pelo fato de negar toda a trajetória de Myers, Laurie e Dr. Loomis, não caiu nas graças do público.


— E que bom! O filme é horrível. —


Halloween (1978), dirigido por John Carpenter


O já comentado proto-slasher de Tobe Hooper, de 1974, não perde em nada ao seu irmão mais novo no que diz respeito o baixo orçamento. Com apenas 140 mil dólares no bolso, o jovem diretor texano usou do seu estado natal para contar a história de uma desgraçada família canibal. Indo contra a expectativa de todos, em ambiente doméstico, a película trouxe para casa cerca de 30 milhões. Com o sucesso, diversas continuações foram rodadas, causando uma curva exponencial de riso nos espectadores que assistem suas minutagens.


— Hooper, sua produção é maravilhosa! Pena que os direitos ficaram com Bryanston Distribution Co. —


The Texas Chain Saw Massacre (1974), dirigido por Tobe Hooper


Com a análise destes títulos, percebemos que o legado e o medo podem ser iniciados com muito pouco. Uma vez que, nos dias de hoje, as três tramas são objetos de culto ao redor do globo todo.

Outros clássicos que marcaram época, mesmo com orçamentos enxutos — comparados às grandes produções de Hollywood —, Friday the 13th (Cunningham, 1980), A Nightmare on Elm Street (CRAVEN, 1984) e Scream (CRAVEN, 1996) ultrapassaram o orçamento de 500 mil dólares em suas produções. O clássico absoluto The Exorcist (FRIEDKIN, 1973) se encontra longe de ser comentado por aqui, uma vez que foi rodado com 12 milhões de dólares dos cofres das produtoras.

Por fim, cravamos que o horror não precisa dos grandes magnatas para continuar pulsando, em uma dialética enigmática onde a morte se torna vida.


"O que é a vida? É o princípio da morte. O que é a morte? É o fim da vida. O que é a existência? É a continuidade do sangue. O que é o sangue? É a razão da existência."

- José Mojica Marins


À Meia-Noite Levarei Tua Alma (1964), dirigido por José Mojica Marins


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